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sexta-feira, 24 de junho de 2011

a máquina humana

O pessoal adora comparar o corpo humano com máquinas. Carros, principalmente. Assim, volta e meia alguém diz "tenho x anos, mas com peças originais de fábrica" (se for mulher), querendo dizer que está inteira por conta da boa genética, e não de nenhum procedimento suspeito de lanternagem. Quando se trata de um homem que está bem, apesar da idade, diz-se que está "em perfeito estado de funcionamento, sem precisar de aditivos", neste caso referindo-se à (ainda) boa performance sexual do sujeito em questão, que dispensaria o uso de viagra e outros produtos. Como se isso fosse o mais importante.

Na verdade a indústria farmacêutica parece ser a grande beneficiária destes novos velhos. Comprimidos para levantar a moral masculina, lubrificantes para as moças; antidepressivos para homens e mulheres em situações de baixa autoestima, calmantes para os estressados; a indústria da cosmética, com cremes milagrosos para tudo... Enfim, uma infinidade de produtos. Sem falar nos remédios para doenças cardíacas, diabetes, artrose e todos os possíveis males que a DNA (Data de Nascimento Antiga) nos traz.

Ninguém fala em alimentar a máquina de maneira mais ecologicamente correta - não com etanol, mas com combustível de melhor qualidade, evitando arruinar os motores pelo uso de cigarros ou bebidas em excesso, por exemplo - caso típico de gasolina adulterada. Ou em alimentar melhor aquilo que habita esta máquina, a casa mental, nossa alma. Essa precisa de cultura, diversão e arte, fugindo dos "pensamentos escuros", como dizia o sábio Dorival Caymmi, altamente poluentes.

É isso. É o que nos habita que interessa. É o que fará a máquina funcionar lindamente, e não a simples mecânica. Pra essa, qualquer oficina serve.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

a tecnologia e o tempo

Eu me achava ultramoderna em 1994, quando comprei meu primeiro computador. Fiquei animadíssima com as possibilidades do editor de texto, e escrevi um livro imediatamente, por conta da minha nova intimidade com esta tecnologia. Depois veio o abençoado email, que me libertou de telefonemas internacionais e faxes, baixando sensivelmente minha conta telefônica. Uma beleza! E veio a revolução do mp3, que me permitiu enviar e receber músicas de e para meus parceiros, a parceria passando a ser virtual e podendo acontecer a qualquer momento e sem fronteiras, o máximo! Achei que estava pronta para entrar no Terceiro Milênio sem problemas.

O editor de texto continua funcionando muito bem. Até escrevo em dois blogs, quem diria! E isso de certa forma me tirou o tempo que eu deveria ter para me concentrar em escrever um novo livro, e até para escrever uma coluna (atividade remunerada) num jornal de grande circulação, como fiz entre 1998 e 2000... As ideias estão ali expostas diariamente nos blogs (de graça). Pra que escrever mais?

O email é sensacional, funciona mesmo. Só que as pessoas dos meus contatos profissionais passam a esperar que eu lhes responda imediatamente, independente de fuso horário ou disponibilidade pessoal. Haja tempo para viver e simplesmente deixar a vida correr, e ai de mim se não me conectar várias vezes por dia! Vou perder trabalhos e decisões importantes, na certa. E olha que me recuso a participar de redes sociais, tipo orkut, facebook, twitter e outras. Só o meu email pessoal já me toma um bocado de tempo.

E para compor novas canções, o mp3 é realmente uma ótima ferramenta. Só que os ouvintes irão baixá-las (pelo mesmo mp3) de graça. Minha profissão, de compositora, parece condenada a virar atividade diletante. Nossa classe musical luta o quanto pode para retardar este momento, mas as novas gerações parece que não pensam assim e querem oferecer seus trabalhos de qualquer maneira, sem perceber que dessa forma jamais conseguirão sobreviver do que tecem.

Agora, quando abro meu Mac, caio direto na página da Apple, que me oferece novos modelos de Iphone, IPad, a famosa "nuvem" que substituirá as antigas tecnologias... Por que eles não nos deixam em paz? precisamos mesmo de tantos sonhos de consumo? Não quero comprar mais nada, gostaria de viver em paz com meu Mac "velhinho" que já tem dois anos...

Não quero aprender a lidar com novas tecnologias. Não quero ter um milhão de amigos que não conheço. Quero muita calma pra pensar e ter tempo pra sonhar. Se tempo é dinheiro, o meu está custando caríssimo. Saudades do século passado!

Gerontofobia

Velho, velhinho/a, vovozinho/a, gasto/a, enrrugado/a, coroa, são termos com conteúdo pejorativo para designar pessoas idosas

Procurando por mais termos preconceituosos, me deparei com um termo que nunca tinha ouvido falar: gerontofobia,que quer dizer medo de envelhecer e todos os sentimentos negativos e preconceitos em relação ao idoso.

A questão que se coloca aí é, que toda vez que o ser humano não consegue ser flexível, cai no estereótipo.Se não aceita o envelhecimento como natural é
um caminho aberto para nos tornarmos gerontofóbicos.

O Brasil, segundo dados do IBGE, tem atualmente 18 milhões de idosos, número bastante significativo para não se alimentar a desvalorização e o preconceito para esta faixa de pessoas. O medo de envelhecer talvez contribua significamente na exclusão do idoso.

Como ouvi de uma pessoa com 70 e muitos: "não se pode cometer a besteira de envelhecer numa sociedade que glorifica a juventude."
No entanto, a juventude não se perde, ela pode renascer em cada descoberta que se faz ,em cada olhar curioso para o mundo.

Além disso, uma piada conhecida, fala que a melhor forma de não envelhecer ...é morrer , que convenhamos não está entre as melhores opções.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

sobre o video que a Nadia postou

Adorei quase tudo o que diz o historiador. Sempre fiquei incomodada com essa conversa de 'melhor idade'. Melhor pra quem? Melhor pra quê? Temos todos aqueles inconvenientes que começam a pipocar, uma artrosezinha aqui, uma dor acolá. É chato. Mais chato ainda é não sermos europeus e não termos aquelas gloriosas aposentadorias que bancam os velhinhos da Alemanha e da Suécia em excursões maravilhosas pelo mundo. Velho no Brasil tem mais é que ralar!

(mas ai de mim se não ralasse... era depressão na certa!)

Por outro lado, discordo um pouco do conceito de que o ruim na velhice é que a pessoa passa a ser 'respeitada' ao invés de 'desejada'. Eu acho o desejo indiscriminado uma perda de tempo, ainda mais nessa fase da vida. Não tenho a menor vontade de ser desejada a torto e a direito, a não ser por quem realmente me interessa. Como disse o sábio Tim Maia, eu quero é sossego.

Agora, respeito é bom e eu gosto.

PS- o canal de comentários daqui do blog finalmente está funcionando! Pra quem desanimou, uma boa notícia.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Sobre o video

Achei que vocês iam gostar. É um video de Leandro Karnal sobre o mito da juventude eterna, a partir dos olhos de um historiador. Foi um encontro no Canal Cultura, no programa Café Filosófico.
Espero comentários...

CAFÉ FILOSÓFICO - UTOPIA DA IDADE PERFEITA 06/07

terça-feira, 15 de março de 2011

na estrada

Vi ontem numa vitrine de livraria, em Milão, a famosa frase da grande Anna Magnani: "não vou esconder essas rugas que levei uma vida inteira para conseguir..."

É isso aí!

sexta-feira, 11 de março de 2011

JUVENTUDE A QUALQUER PREÇO

Lendo umas revistas femininas numa sala de espera, fui reparando que todas,sem exceção, tinham um artigo sobre como se manter jovem. Parece obsessão e é. Este tipo de artigo que atrai as pessoas e ajuda a vender revistas, faz muito sucesso, não só com mulheres, assim como com homens, também.

Desde que o mundo é mundo vivemos em busca da juventude eterna. E quem ganha com isso? Todos que prometem a última descoberta para combater o envelhecimento, os botox,os ácidos hialurônicos sem limites. Aqueles que deformam expressões, incham rostos e lábios.

A quem estamos enganando quando queremos parecer mais jovens? A nós mesmos...não?

Os efeitos são muito mais psicológicos que físicos, até que o efeito passa e recomeça a via crucis pelo mais novo produto da moda.

Queria ressaltar que cuidar de si mesmo é muito bom, mas de uma forma mais ampla.Ter uma vida saudável, ativa, alimentar-se bem, fazer exercícios físicos, cuidar da saúde psicológica, agindo assim teremos uma forma de juventude, não aquela sem rugas, mas a de saber viver, ter vitalidade, estar bem consigo mesmo e se aceitar como se é.

Nos tempos que vivemos a imagem de maturidade, sabedoria e as experiências de vida, que as rugas e os cabelos brancos denunciam, não são muito valorizadas, o que se deseja é parar o tempo.

Padrões de beleza da maturidade são confundidos com juventude.

O equilíbrio entre o corpo e a mente é o melhor remédio para o envelhecimento

quarta-feira, 9 de março de 2011

DE REPENTE...

Depois que os filhos crescem e tomam as rédeas de suas próprias vida, resta o casal. Casal que há muito não estava mais acostumado a viver a dois, como no início da vida em comum. Acaba o entra e sai dos filhos e dos amigos destes , das festas, do telefone tocando sem parar, das refeições fora de hora, da angústia de esperar os filhos chegarem, mesmo que adultos, de sofrer as dores de cotovelo dos filhos, enfim, de uma certa desorganização, que pode tirar facilmente, o foco do casal de si mesmo.

De repente, sem que nada tenha sido avisado, um dos filhos se separa e com as dificuldades da vida de hoje, nada mais comum, que voltar para a casa dos pais, até que possa estar apto para começar de novo e ir viver sua própria vida ... E o casal como fica? Todo o esforço para superar saudades, para se adaptar a viver só os dois, vai por água abaixo.

Agora a casa do vovó e do vovô é a mesma casa do papai ou da mamãe. E o casal como fica?

Estou falando de uma mudança que está permeada de afeto, de amor, que existe quando se trata de filhos e netos. Mas quero chamar atenção para este casal, que mal tinha se acostumado a viver uma vida de casal e suas vidas são tomadas por um tsunami e tudo volta ao que era dantes no quartel de Abrantes.

E este casal que vínhamos falando, será que consegue recuperar o que já conquistou?
Recupera, se ao longo de toda vida soube reservar um espaço "sagrado" para si mesmos, recupera, se não se deixaram engolfar pelo cotidiano dos filhos, recupera, se souberam manter os limites, preservando seu espaço emocional. Assim, terão condições e lastro para viver uma vida de cumplicidade, por muitos e muitos anos.
E nunca é tarde para se exercitar limites.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Brasil

Aqui era aquele lugar do mundo onde não havia terremoto, tufão, ciclone nem nenhuma dessas catástrofes conhecidas. Depois do que houve na Serra, o que dizer? As enchentes já eram comuns em época de chuvas, a ponto de eu aconselhar meus amigos estrangeiros a nunca virem ao Brasil no verão. Então aconteceram as chuvas de abril de 2010, onde parte da minha rua ficou presa em cerca de um metro e meio de lama, casas aparentemente sólidas ficaram penduradas nas encostas... E agora, isso.

O planeta parece que está em convulsão, em todos os sentidos. O mundo árabe passa também por um outro tipo de terremoto, que vai se espraiando de forma jamais imaginada. Isso é bom. Ou não. Isso é estranho. O século 21, historicamente, começou em 11 de setembro de 2001 e não parou mais. A Terra nave-mãe-boazinha também não é mais a mesma. Tudo muda. The answer, my friend, is blowing in the wind (sempre achei Bob Dylan um chato, mas ele tem razão).

Não sei se estou preparada para este século, como pensava estar.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Estive na serra nesse último fim de semana. É chocante, mas ao mesmo tempo surpreendente a imensa capacidade de superação do ser humano. A vida segue... a cidade fervilha. Os jovens retomando os espaços de lazer, os bares voltando a encher... e o que emociona: uma solidariedade no ar.
Não poderia deixar de comentar a presença do poder público, no sentido positivo, da assistência prestada à população. A nós, sempre assombrados com o descaso do Estado, em várias circunstâncias, surpreendeu não só a presença maciça como a rápida ação dos governantes, na tentativa de amenizar o imenso sofrimento das pessoas.
Oxalá estejamos no caminho certo. Uma sociedade madura requer um Estado sério. Tomara....

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

CONTRASTES

Domingo a tarde, um calor de rachar e lá vou eu atrás de aventuras estéticas, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro. Tinha duas exposições que eu queria ver.

A primeira, maior, com muito público, do artista gráfico holandês Escher. Incrível, impactante, com ilusões de ótica em suas xilogravuras, formas transmutantes, figura e fundo, fundo e figura .Paradoxal, forte e imperdível. Fiquei vibrando em cada passo que ia percorrendo na exposição.

Tocou meu coração de um modo.

Tomei um lanche, como se tivesse que tomar fôlego, estava cansada, mas feliz.

Fui então em direção a um outro universo, doce, calmo, sutil, na bem montada exposição da nossa grande poetisa Cora Coralina. Delicada como ela, de um bom gosto impressionante, com fotografias, manuscritos, correspondências, tudo montado em tons lindos.
Ela teve a vida daquelas mulheres de uma ousadia discreta, casou-se em 1911 com um homem separado, com o qual teve 5 filhos. Depois de viúva trabalhou para sustentar a família, desde vender livros a doces que fazia como as poesias,com açúcar e com afeto. Ao completar cinquenta anos de idade, a poetisa relata ter passado por uma profunda transformação interior, a qual definiria mais tarde como "a perda do medo".

Seu primeiro livro só foi publicado quando tinha 76 anos. Sim, muitos sonhos podem se tornar realidade aos 76, na medida que se deixa os medos de lado.

Tocou meu coração de outro modo.

Um poema dela:

“Não sei ... se a vida é curta ou longa demais pra nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas. Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove. E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura. Enquanto durar..." Cora Coralina

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Afinal, cá estou.
Numas férias parciais, visto que trabalho está virando cachaça para mim. Não consigo relaxar e esquecer dos percalços cotidianos.
Por outro lado, adoro me sentir atribulada, com mil coisas para fazer. E é nesse clima que subir a serra é o maior barato...bem verdade que agora nem tanto.
Estou para ir à Friburgo desde os trágicos acontecimentos de janeiro, mas confesso que ainda não tive coragem. Esse final de semana vou enfrentar...
E aí poderemos falar dos males das nossas cidades, dos nossos gestores públicos, da nossa sociedade e tentar entender as nossas peculiaridades que nos fazem diferentes daquilo que consideramos ambientes sustentáveis e para nós parece não chegarem nunca. Até mais.

REDES SOCIAIS


Joyce no post anterior fala da juventude dos idosos de Copacabana.

Nada na vida é mais importante que se ter um sentimento de pertinência: eu faço parte deste grupo , eu tenho a minha turma... quando alguns já não contam tanto com suas famílias, pelos mais variados motivos, o grupo faz as vezes da família , é o grupo de suporte.Daí a importância de uma política pública que proporcione lugares e atividades que facilitem o encontro de pessoas mais idosas.

Copacabana é um bairro do Rio de Janeiro com a maior incidência de pessoas aposentadas, e algumas medidas tiveram a iniciativa da própria população, como a criação de redes de voley em diversos pontos da praia, ginástica para a 3ª idade( não gosto deste termo), um quiosque com várias mesas de xadrez, que está sempre lotado de dia e ao anoitecer.

Hoje o governo encampou algumas destas iniciativas e organizou melhor os espaços.

As pessoas que se dispõem a freqüentar qualquer destes grupos se sentem acompanhadas e não sofrem de solidão. Os estudos provam que adoecem menos e se sentem mais autônomas.

Redes sociais, aqui não é usado no sentido de Facebook,Twitter etc.. mas no de redes tecidas pelos próprios participantes e que vão se tornando cada vez mais sólidas.Um espaço para se sentir acolhido, de compartilhar dores e alegrias, trocar dúvidas, informações, cuidados e estabelecer laços de amizade ou até mesmo afetivos.

E Copacabana dá show de bola neste quesito.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

muchachas de Copacabana

Faz pouco tempo, encontrei em São Paulo com dois casais que eu não via havia tempo, pais de amigos nossos. São pessoas na faixa dos 80 anos, muito bem de vida em termos financeiros - moram bem, vivem confortavelmente acima da média, enfim, nada aparentemente lhes falta. Pois bem, para minha surpresa, eles não estavam parecendo nada bem fisicamente, pelo contrário: estavam bastante caidinhos, velhinhos mesmo, já sem a energia de outrora. Parecia que se arrastavam pela vida restante.

Na mesma semana, já de volta, aconteceu de almoçarmos num desses restaurantes a quilo aqui no Rio, cheio de idosos e idosas da mesma faixa etária dos nossos amigos paulistas. Quanta diferença! Quanta alegria de viver nas senhorinhas risonhas de Copacabana, quanta malícia nos velhinhos assanhadíssimos ("o velho na porta da Colombo/ é um assombro/ sassaricando..." - como na marchinha da nossa infância), quanta graça em todos eles.

O que haverá no Rio de Janeiro que o torna tão melhor em qualidade de vida para os idosos? Será a praia, o calçadão, a água do mar? Mas que dizer do pessoal das Velhas Guardas das escolas de samba, todos moradores do subúrbio, e tão cheios de energia? Se alguém puder explicar este mistério, me conte.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

QUASE AVÓ NÃO...AVÓ !

Segunda feira já me preparando para ir trabalhar, quando recebo um telefonema: Nadia, parece que vai ser hoje. Os médicos estão achando que ela deve ir para a maternidade!

E meu filho que estava viajando a trabalho? Ligo para ele tentando ser o mais natural possível: você conseguiu a passagem? A que horas é seu vôo? Aliviada desligo, primeira situação de pequeno stress resolvida, ele chega em três horas ao Rio. Ufa! e agora o que faço? Fico meio barata tonta, até que peço à minhas amigas/irmãs, quero vocês lá. Numa hora dessas o apoio e carinho são fundamentais.

Por uma destas coincidências da vida, chegamos todos, ao mesmo tempo na recepção do hospital, todos vindos de pontos diferentes da cidade e do país. Bom começo.
Subimos para o quarto e começam a chegar, parentes, amigos. Num minuto, o que deveria ter um mínimo de tranqüilidade se transforma numa festa. Os futuros papais riam com os irmãos e amigos, e os futuros vovós tentavam controlar sua ansiedade e por ordem na casa.

Vem a maca que leva minha nora e meu filho acompanha, emoção sem controle: chegou a hora tão esperada! Os minutos passam devagar, a atenção fica voltada para qualquer notícia da sala de parto. Chega a primeira, nasceu! Choros e risos. Os minutos custam a passar, por favor, mais notícias, quando vai ele chegar ao berçário?

De repente meu filho aparece com aqueles trajes de centro cirúrgico, trazendo nos braços aquele pequenino. Ninguém mais se conteve, emoções soltas,abraços, sensação de plenitude. Olhei para meu filho e vi uma mudança repentina, agora ele era PAI. Mas não foi ontem que ele nasceu? Não, agora ele estava no lugar do pai dele, carregando o filho nos braços, todo cuidadoso e responsável.

E nós, avós? Emocionados, com a melhor das sensações, viveríamos para sempre naquele pequeno! Um sentimento de continuidade. Um momento, ao mesmo, tempo tão simples e tão intenso e nossas vidas se transformaram, não éramos mais os mesmos e a vida ganha outro sentido. Tudo isso numa fração de segundos... Como??

Momento mágico, indescritível, pensamentos a mil, a cabeça voava no tempo, presente, passado e futuro se misturavam, eu, meus pais, meus avós, todos representados por um pequeno, que iria crescer e dali a anos tudo se repetiria, meu filho estaria com o nariz colado no vidro, tentando reter para sempre, o que se pode chamar, com certeza, felicidade!

Para Joaquim, com amor.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

CUIDADO PARA NÃO SE ENGANAR...

Tenho uma amiga de muito tempo, que um belo dia, já com filhos criados, resolveu ir morar nos Estados Unidos, na cidade de sua família americana. Perdi o contato com ela, até que nos encontramos numa rede social. Colocamos em dia nossas vidas e seguimos nos falando eventualmente.

Um dia ao entrar na rede, vejo que seu status tinha mudado de solteira para um relacionamento sério. Dei vivas à ela e assim o tempo foi passando...

O homem americano como o europeu, geralmente se envolve afetivamente com mulheres de sua idade, sem nenhum tipo de restrições. No entanto, aqui no Brasil, reza a lenda que os homens preferem, ao escolher um novo par, mulheres mais novas do que eles , diferença que pode chegar a trinta anos ou mais. Ouço esta reclamação com uma certa freqüência das mulheres com quem trabalho e já são mais maduras. Até jovens mulheres na faixa do trinta e alguns anos fazem coro a esta reclamação. Estes dados são meramente especulativos, só da minha observação, sem nenhuma pesquisa que os dê uma consistência.

Mas voltando a minha amiga, vi que seu status tinha mudado novamente, de relacionamento sério para noiva. A partir daí, me senti curiosa de conversar com ela para saber se, morando há tantos anos fora, numa outra cultura, sentia a diferença no comportamento dos homens, no quesito novas parceiras. Ela sentia que os homens brasileiros preferiam, depois de separado ou viúvos, relacionar-se com mulheres mais novas, ao contrário dos americanos?

Ela riu muito das minhas questões, fiquei sem entender nada, até que ela me explicou que o noivo era um brasileiro, dois ou três anos mais velho, um conhecido dos tempos da juventude. E que chamava de noivado a apresentação formal às respectivas famílias e o desejo de tornar estável a relação.

É, pensei com meus botões, preciso rever minhas observações. As relações homem/mulher devem estar,como todo o resto dos comportamentos , sofrendo profundas modificações. E as estatísticas vão, aos poucos, nos mostrar mudanças sensíveis nestas relações.

Por favor, homens e mulheres na faixa dos 50/60/70/80 anos, com suas
experiências,me forneçam material, para que eu possa ficar bem atualizada.

Afinal,aqui no Brasil,a idade do parceiro/a é fundamental na hora da escolha?

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

cocoon

Por acaso, ontem assisti pela enésima vez às cenas finais do filme 'Cocoon' - pra quem não se lembra, aquele filme dos anos 1990 em que um grupo de velhinhos vai nadar numa piscina e descobre que dentro dela há casulos ('cocoons') que vieram do espaço e que os tornam repentinamente jovens de novo. Não na aparência (um acerto do filme) mas na capacidade de correr, dançar, transar e outras estripulias de ordem física.

No final do filme, os velhinhos resolvem partir para o planeta de onde teriam vindo os tais casulos - e vão mesmo. Engraçado ver isso de novo, tantos anos depois. O filme, quando assisti pela primeira vez, fazia algum sentido pra mim. Achei mesmo engraçado e poético. Mas vendo a cena em que o casal de avós se despede do neto (com quem tinham uma cumplicidade incrível, a ponto dele tê-los ajudado a fugir na nave), já não gostei do filme tanto assim.

Deixar os netos para trás em troca da eterna juventude... eu, hein? Nem pensar. Prefiro ficar velhinha mesmo, e esperar os bisnetos que um dia me chegarão.

domingo, 9 de janeiro de 2011

MIAMI 1967

Em Janeiro 1967 fui a Miami pela primeira vez, e de tudo que vi, uma das lembranças mais fortes, era da quantidade de idosos, de cabelos branquinhos dirigindo seus possantes e enormes Cadillacs , alguns até sem capota. Era uma visão única, que se tornou inesquecível para mim. Não sei se tive naquela época a compreensão do que aquele comportamento significava. A velhice estava muito longe de mim, muito!

Nos vivemos numa sociedade que glorifica o jovem, seu corpo, sua beleza, sua vivacidade e inteligência. O que nos leva automaticamente à desvalorização dos mais velhos, que perdem seu papel social, que se sentem invisíveis quando em contato com outras gerações.

Em algumas culturas mais primitivas o papel do idoso é outro, seu declínio não é tão cruel e ele passa a ser uma pessoa que tem o respeito e prestígio em sua comunidade. Concluímos que a forma como se aceita o envelhecimento varia de cultura para cultura. Sendo assim, pode ser revista, modificada, reavaliada por todos nós. Como já falei em outra ocasião, nossa expectativa de vida está aumentando, o que vai gerar modificações em várias áreas, inclusive em como o idoso se percebe, quais as suas reais potencialidades, o que pode planejar para sua vida, o que deseja para si mesmo, sem a interferência de terceiros.

O envelhecer supõe um desgaste biológico, nada mais certo. Mas gostaria de falar de um talento que se pode aperfeiçoar com o tempo - a sabedoria. Podemos chamar de sabedoria tudo que se aprende vivendo, esse conjunto de experiências que se acumula na vida de cada um de nós e que pode nos tornar mais respeitáveis e principalmente orgulhosos de nossas vidas. Aquilo que construímos, do que soubemos lidar, dos obstáculos vencidos, dos erros relevados, das mágoas esquecidas e daquilo que podemos passar para os nossos,entre tantas coisas, ser uma pessoa mais flexível consigo mesmo e com os outros.
Se nos agirmos assim, seremos responsáveis por uma nova identidade do envelhecer.

Dedicado aos idosos de Miami de 1967

sábado, 8 de janeiro de 2011

mulheres francesas não engordam... mas também envelhecem!

Sempre tive a maior admiração pela França, e acho que toda a nossa geração teve essa mesma ligação com o país de De Gaulle, Bardot, Godard, Sartre e Simone de Beauvoir. Cantamos 'L'Eau à la Bouche', sonhamos com Paris como representação simbólica de liberdade (que depois se transferiria para Londres e Nova York), participamos mentalmente de maio de 68, lemos aqueles livros todos e vimos todos aqueles filmes. Hoje em dia a França anda meio caída, cheia de problemas, como de resto toda a Europa. Mas os ícones continuam lá, para quem quiser, e na questão da passagem do tempo, com muita informação interessante.

A sábia Catherine Deneuve foi quem disse que depois dos 50 anos a mulher tem de escolher entre o rosto e a bunda (em francês fica mais engraçado: 'entre la face et les fesses') Ela obviamente escolheu o rosto e ficou aquela senhora bem cheinha, mas de cara bonita, que ainda vemos nos filmes. E continua lá, aproveitando seus queijos e vinhos. Mas além das partes citadas por Madame Deneuve, eu diria ainda que é bom investir numa terceira, minha favorita - o cérebro.

O povo francês continua sendo o mais cartesiano e pensante do planeta, e uma de minhas figuras preferidas é a escritora feminista Christiane Collange. Ela escreveu alguns clássicos do gênero, como 'Eu, Sua Mãe' (sobre a dura tarefa de ser mãe de adolescentes e/ou jovens adultos), 'Eu, Sua Filha' (este falando daquele difícil momento em que temos de assumir o cuidado com os pais e mães idosos, quando ainda estamos em plena atividade) e o ótimo 'A Segunda Vida das Mulheres'. Este último, e mais recente, trata justamente da questão dos novos idosos. melhor dizendo, das novas idosas. Ou seja, os velhos da família agora somos nós. E você, mulher, que já viveu, que já sofreu, etc, etc, vai se reinventar, porque não tem outro jeito.

A igualmente sábia Tonia Carrero já dizia, ao ser perguntada sobre o que estava achando de envelhecer: 'acho ótimo, até porque a outra opção é morrer'. É por aí que Mme. Collange constrói seu argumento, demonstrando que nós, mulheres, temos mesmo uma segunda vida depois que acaba aquela primeira que construímos, com família já dispersa, pais falecidos (e às vezes maridos também), filhos adultos vivendo as próprias vidas, carreiras encerradas, na perspectiva dos 'aposentos'. Depois de uma alentada pesquisa com mulheres francesas de classe média entre os 50 e os 75 anos, ficou claro que essa 'segunda vida' é postura recorrente de mais de uma geração. É o que ela chama de 'a segunda revolução da condição feminina', quando a vida não mais entra em declínio após a menopausa. Como iremos viver esses 30, 40 anos que ainda teremos pela frente? Na base da reinvenção de nós mesmas, claro.

Recomendo este livro a quem puder encontrá-lo (não sei se já está esgotado); e recomendo ainda um fabuloso filme a que assisti ontem, do oitentão e genial Clint Eastwood: 'Além da Vida' ('Hereafter'), que trata exatamente da nossa próxima parada - aquela da qual ninguém escapa.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

MUDANÇAS e mudanças

No dia que descobri que meu filho mais velho, estava começando a sair e dividir todas as despesas de cinema , jantarzinhos, viagens,etc.. de forma espontânea, com a namorada, eu me senti feliz. Toda prosa, percebi que eu e o pai tínhamos conseguido passar a lição direitinho. Desde sempre dividimos as despesas, apesar, lógico (mulheres até hoje ganham menos) , dele ganhar mais do que eu.

No fim dos anos 60, com todas mudanças que aconteciam, os pobres dos rapazes tinham que pagar a entrada do cinema e a pipoca, no mínino. Ainda era o ranço do machismo, ainda uma questão de domínio ou honra. Sei lá!
Meu filho nem pensava neste tipo de honra e quando estava sem dinheiro era a namorada que pagava tudo. E vice-versa.

E eu percebi que tinha conseguido passar para os filhos, minhas (nossas) crenças. Para mim a divisão de despesas é um símbolo de mudanças comportamentais contemporâneas, uma marca nas relações homem / mulher.
Quando se divide dinheiro, tudo o mais fica fácil de dividir. Dinheiro é símbolo de poder. É, então, uma combinação tácita, que o poder naquela relação, é dos dois, é equilibrado.

Num encontro social da minha geração com mulheres na faixa dos trinta, uma das moças presentes declarou que se sentia muito agradecida ao marido ter permitido a ela, ficar sem trabalhar até o filho fazer um ano.

Não deveria ser uma troca? Mal comparando, hoje eu posso, eu pago, você paga quando eu necessitar. Não é assim que deveria ser nos anos 2011? A mulher precisa ser agradecida pela ajuda e compreensão do marido até o filho crescer um pouco, para voltar ao mercado de trabalho? Será que o marido seria tão grato, dela trabalhar enquanto ele fazia doutorado, por exemplo? É um caso isolado? É comum? Ainda é o raio do machismo, que teima em dar o ar da graça, num ambiente de jovens modernas, trabalhadoras e auto-suficientes?

Não sei, o que sei é que fiquei um pouco decepcionada...